O Que Sobrou da Religião?
Diário do Comércio, 12 de maio de 2010.
Se há neste mundo um fato bem comprovado, é a percepção extra-sensorial
durante o estado de morte clínica.
Um corpo inerte, sem batimentos cardíacos ou qualquer atividade
cerebral, desperta de repente e descreve, com riqueza de detalhes, o que
se passava durante o seu transe, não só no quarto onde jazia, mas nos
outros aposentos da casa ou do hospital, que de onde estava ele não
poderia ver nem se estivesse acordado, bem de saúde e com os olhos
abertos. Isso já se repetiu tantas vezes, e foi atestado por tantas
autoridades científicas idôneas, que só um completo ignorante na matéria
pode teimar em permanecer incrédulo. Mas mesmo alguns daqueles que
reconhecem a impossibilidade de negar o fato relutam em tirar a
conclusão que ele impõe necessariamente: os limites da consciência
humana estendem-se para além do horizonte da atividade corporal,
inclusive a do cérebro. A relutância em aceitar isso mostra que o “homem
moderno” – o produto da cultura que herdamos do iluminismo – se
identificou com o seu corpo ao ponto de sentir-se amedrontado e ofendido
ante a mera sugestão de que sua pessoa é algo mais. É evidente que aí
não se trata só de uma convicção, de uma ideia, mas de um transe
auto-hipnótico incapacitante, de um bloqueio efetivo da percepção.
Esse estado é implantado nas almas pela tremenda pressão anônima da
coletividade, que as mantém em estado de atrofia espiritual mediante a
ameaça do escárnio e o temor – imaginário, mas nem por isso menos
eficiente – da exclusão. Infinitamente multiplicado e potencializado
pelo sistema educacional e pela a mídia , o que um dia foi mera ideia
filosófica, ou pseudofilosófica, incorpora-se nas personalidades
individuais como reflexo de autodefesa e, na mesma medida, restringe a
autopercepção de cada qual ao mínimo necessário para o desempenho nas
tarefas imediatas da vida socio-econômica. É tudo uma profecia
auto-realizável: se a evidência avassaladora da percepção extracorporal
é negada, não é só porque as pessoas não acreditam nela – é porque se
tornaram realmente incapazes de vivenciá-la de maneira consciente. Vivem
alienadas da sua experiência psíquica mais profunda e constante,
encerradas num círculo de banalidades no qual o triunfalismo “cultural”
e “científico” da mídia popular infunde uma ilusão de riqueza e
variedade.
O “mundo real” no qual essas pessoas acreditam viver é o dualismo
galilaico-cartesiano, já totalmente desmoralizado pela física de
Einstein e Planck, mas que a mídia e o sistema escolar continuam impondo
à alma das multidões como verdade definitiva: tudo o que existe nesse
mundo são as “coisas físicas” e, em cima delas, o “pensamento humano”,
as “criações culturais”. De um lado, a realidade dura da matéria regida
por leis supostamente inflexíveis, nas quais se fundamenta a autoridade
universal e inquestionável da “ciência”; de outro, a pasta mole e dúctil
do “subjetivo”, do arbitrário, onde toda opinião vale o mesmo.
Dessa esfera “subjetiva” faz parte a “religião”, que é o direito de
crer no que bem se entenda, com a condição de não proclamá-lo jamais
verdade objetiva ou valor universal.
Nessas condições, o próprio exercício da religião torna-se uma
caricatura grotesca. Tanto quanto o ateu, o homem religioso de hoje em
dia acredita piamente na existência de uma esfera material autônoma,
regida por leis próprias que a ciência enuncia, só de vez em quando
rompidas pela interferência do “milagre”, do “inexplicável”, do
“divino”. Por mais que a filosofia esculhambe com o “Deus dos hiatos”
(aquele que só age por entre as brechas do conhecimento científico), ele
é o único que restou no altar das multidões de crentes.
Oficializada pelo establishment governamental, universitário e
midiático, a rígida separação kantiana de “conhecimento” e “fé”
tornou-se verdade de evangelho para a maioria das almas religiosas,
embora ela seja, em si, perfeitamente herética à luz da doutrina
católica, interpondo um abismo infranqueável entre dimensões cuja
interpenetração, ao contrário, é a própria essência da concepção cristã
do cosmos. É novamente a profecia auto-realizável em ação: à percepção
mutilada do eu individual corresponde uma religião mutilada, e
vice-versa.
Quando digo percepção mutilada, estou afirmando, taxativamente, que a
imagem do eu como algo que reside no corpo ou se identifica com ele é
fantástica, ilusória, doente. Ela impõe à consciência limitações que não
são de maneira alguma naturais, muito menos necessárias. Todas as
tradições espirituais do mundo, todas as disciplinas sapienciais começam
pela constatação óbvia de que o eu não é o corpo, não “está” no corpo
mas de certo modo o abrange como o supra-espacial transcende e abrange o
espacial (este é balizado por certas relações matemáticas que, em si,
não estão em parte alguma do espaço). Mas uma coisa é compreender isso
por pura lógica, outra bem melhor é poder constatá-lo no fato vivo da
percepção extra-sensorial em casos de morte clínica. Bastaria, a rigor,
um único episódio desse tipo para dar por terra com a balela de que o
cérebro, isto é, o corpo, “cria” a cognição, o pensamento, a
consciência. Mas os episódios são milhares, e o desinteresse dos crentes
por esse tipo de fenômenos (mais estudados por ateus, adeptos da New Age
e budistas do que por católicos, protestantes, ou mesmo judeus crentes)
denota que a mente religiosa já se conformou com um estado de existência
diminuída, em que a alma supracorporal, condição fundamental do acesso a
Deus, só passará a existir no outro mundo, por alguma transmutação
mágica da psique corporal, em vez de constituir já nesta vida a nossa
realidade pessoal mais concreta, mais substantiva e mais verdadeira,
presente e atuante nos nossos atos mais mínimos como nas nossas
vivências mais elevadas e sublimes.
Durante milênios cada ser humano, ao pronunciar a palavra “eu”,
referia-se de maneira imediata e automática à sua alma imortal, a única
que podia orar e responder por seus próprios atos ante o altar da
divindade. Dessa alma, a psique corporal era uma parte e função menor,
voltada ao meio material e social tão-somente, alheia a todo senso do
eterno e, a rigor, incapaz de pecado ou santidade, apenas de delitos e
virtudes socialmente reconhecidos. A partir do momento em que a psique
corporal foi assumida como realidade autônoma, cada indivíduo só se
enxerga a si mesmo como membro de uma espécie animal e como “cidadão”,
amputado daquela dimensão que fundamenta o senso último de
responsabilidade e cultivando, em lugar dele, o mero instinto da
adequação social, adornado ou não de “moral religiosa”. Imaginem a
diferença que isso faz, por exemplo, na compreensão que você tem da
Bíblia: se você não a lê com sua alma imortal, talvez fosse melhor não
lê-la de maneira alguma, porque a lê com a carne e não com o
espírito.


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