A matança dos inocentes (Paulo Nogueira)
Era uma vez uma pílula vermelha, uma pílula azul e um arco-íris monocromático. Paulo Nogueira para o Observador:
Em 1999, Larry e Andy Wachowski lançaram o filme “Matrix”, que era fixe (depois assinaram duas sequelas excrementícias). Em 2012, Larry redesignou-se como “Lilly”, e Andy como “Lana”. Agora a dupla acusou J. K. Rowling de “financiar o genocídio contra pessoas trans”, e exortou os terráqueos a boicotarem a série “Harry Potter”, da HBO, que estreia em 25 de dezembro.
Rowling, além de inovar a literatura infantil, apoia as mulheres que movem ações judiciais no UK para preservar seus direitos fixados pela Lei da Igualdade de 2010, muitas vezes ignorados ou ameaçados. Fundou em Edimburgo o Beira’s Place, para mulheres a partir de 16 anos, vítimas de violência doméstica, e abuso e exploração sexuais. Há 20 anos criou a Fundação Lumos, que socorreu até hoje 350 mil crianças e jovens vulneráveis.
Ela é contra ações que prejudiquem os direitos trans. O que não significa dar ao lobby de misóginos encapotados carta branca para oprimirem à vontadinha o mulherio, como nos bons & velhos tempos, mas hoje com o salvo-conduto de “transgéneros” (mulheres com próstata) – nos provadores de roupas, nas prisões, no desporto, e até em abrigos para raparigas abusadas por marmanjos. Se depender de JK, o transfascismo não passará.
Segundo o World Population Review, 6% da população planetária é gay. De acordo com Human Rights Campaign, trans são ainda menos: 1% (embora em aumento vertiginoso, sobretudo entre adolescentes do sexo feminino, grupo propenso ao contágio social: 1 em cada 100 mil).
Desde que entre adultos consensuais, os seres humanos não devem ser discriminados pela sexualidade. Só que, com o identitarismo, e apesar da insignificância estatística, a louvável igualdade para as minorias descambou em insaciáveis e cada vez mais intolerantes privilégios (e a propaganda é a alma do negócio).
E tomem difamações, como a das Wachowski – se não é indiscrição, onde estão os milhões de trans chacinados nesse genocídio? Obviamente, nos armários já não estão. Já Rowling recebe diariamente ameaças de violação e morte (precisa de guarda-costas, como Salman Rushdie com a fatwa de Khomeini). Ativistas trans divulgaram online a morada dela, incitam atentados contra toda a sua família, e postaram vídeos a carbonizar os seus livros. Nesses casos, o amor que não ousava dizer o seu nome agora prefere espumar o seu ódio.
Sabem aquela cultura opressiva, a das democracias ocidentais? Em vez da biologia, as escolas (no Ocidente, não em Gaza) ensinam apenas “gênero”, e perguntam às crianças se elas gostavam de identificar-se como “não-binárias”. Os alunos são submetidos a um caleidoscópico de “identidades” (a última vez que contei, eram 83, ao infinito e além). E os livros didáticos elucidam que a atração sexual têm zero a ver com genitália, cromossomos, hormônios. Reina uma identidade de gênero inata, que precisa de ser alinhada ao próprio corpo através da terapia hormonal e cirurgias.
Puberdade, quando o cérebro envia sinais às gônadas, assinalando a transição da infância para a fase adulta e a aptidão reprodutiva, e rapazes e raparigas começam a testar desajeitadamente as suas preferências? Qual carapuça! Nenhum pirralho é demasiado novo para professar uma identidade trans e ser obedecido: mesmo que seja a balbuciar “gugu-dadá”. Diane Ehrensaft, psicóloga de São Francisco, jura que miudinhos impúberes podem enviar “mensagens de gênero” não verbais. Um bebé sinaliza uma identidade feminina ao desabotoar o body para imitar um vestido, e uma bebé ao retirar a fita do cabelo, a indicar a sua virilidade. Ehrensaft instrui pais de crianças de 3 anos “afirmarem” as identidades de gênero dos filhos – ou serão monstros morais (em vez de gente bem-intencionada que acredita em charlatães gananciosos).
O conceito de “criança trans” é um pilar da falácia que seres humanos “nascem no corpo errado”. Claro que sempre existiram minorias homossexuais, atraídas por pessoas do mesmo sexo (como murmurou a rainha Vitória: “Bem, desde que não assustem os cavalos…”). Por isso mesmo, lésbicas não sentem nenhuma atração por mulheres trans (homens com pénis), mas agora desenrasquem-se: arranjem uma pilinha e tornem-se outra coisa. No Irão, a homossexualidade é crime punível com a pena de morte, mas a redesignação sexual é legalizada.
Viver jamais foi moleza (por razões mais ou menos óbvias). Mas, numa sociedade que nunca foi tão próspera, donde brotou essa pandêmica e alucinante crise de saúde mental e “disforia” (que durante os 200 mil anos do homo sapiens ninguém vira mais gorda)? O identitarismo postula que os homens cis são cavernícolas tóxicos, e as mulheres cis atrasadas mentais (baby-sitters dos filhos e gueixas dos maridos, mesmo que sejam Ursula von der Leyen ou Georgia Meloni). Ah, e Sidney Sweeney é a boneca insuflável do patriarcado (e que se lixe o dogma “meu corpo, minhas regras” – afinal, ela vota Trump). Bolas, para um miúdo ou uma miúda serem héteros hoje em dia é preciso ter tomates! Era só o que faltava, os putos inspirarem-se na mãe e no pai…
Em 2020, o site GoFundMe, em geral para angariar ajuda humanitária em desastres, recebeu 30 mil pedidos urgentes de mulheres jovens que desejavam remover suas maminhas perfeitamente saudáveis. Em 2021, o New England Journal of Medicine, o jornal médico de maior prestígio nos EUA, publicou um artigo a explicar que o sexo biológico é “atribuído ao nascimento” por um médico — e não um facto impresso em cada um dos nossos cromossomos (dantes os obstetras simplesmente erguiam os recém-nascidos pelos pés e espreitavam se havia ou não um penduricalho). Para o artigo, o sexo biológico devia ser excluído das certidões de nascimento, porque não tem “nenhuma utilidade clínica”. Novidade traumatizante para os ginecologistas.
O desvario foi ao ponto de que até países virtuosos já pisam no travão das cirurgias de “redesignação” e nos bloqueadores de puberdade (que arruínam a fertilidade e a estrutura óssea). Mas a “World Professional Association for Transgender Health”, ainda prescreve carnificinas (mastectomia, raspagem à traqueia, vaginoplastias e castração), como parte da “afirmação de gênero” em seres quase com dentes de leite – por inerência desinformados e impulsivos. Todavia, por todo o mundo leis protegem os jovens do arrependimento, proibindo atividades que podem causar danos a longo prazo: comprar álcool, tabaco ou armas, contrair dívidas e até fazer tatuagens.
Inúmeras das pobres cobaias ideológicas relatam a ansiedade de serem pressionadas a “fazer a transição” como se não houvesse outras opções, e gostavam que antes os profissionais de saúde as tivessem ajudado a perceber as idiossincrasias psicológicas que as alienaram dos seus próprios corpos. Arrependem-se amargamente das mutilações, considerando que não eram maduras para decisões tão importantes. O corpo humano não é um Lego.
Quando vidas estão em jogo, é melhor ser rigoroso que politicamente correto. Um estudo desta semana na Finlândia (revista Acta Paediatrica) analisou casos de 2000 jovens “redesignados” entre 1996 e 2021. A necessidade de tratamento psiquiátrico não apenas persistiu, mas aumentou após intervenções hormonais ou cirúrgicas. Agravaram-se a depressão e os casos de suicídio.
Já em 2026, a própria OMS (não propriamente um antro de reacionários) anunciou que as diretrizes para pessoas trans “incluirão apenas adultos, e não lidarão com as necessidades de crianças e adolescentes, pois a base de evidências para estas faixas etárias é limitada a respeito dos resultados de longo prazo”. Em abril, na Grã-Bretanha, o Supremo Tribunal decidiu que, para efeitos da legislação sobre igualdade e antidiscriminação, “sexo” significa biologia, e não documentação ou autoidentificação. Enfim, não poderão mais ser sacrificados direitos alheios, como os da metade da humanidade outrora conhecida como “mulheres”.
Casa roubada, trancas à porta? Uma geração inteira imolada no altar (ateu) de uma agenda política, literalmente carne para canhão. Como notou H. Joyce: “É improvável que uma adolescente cuja identidade não-binária se expressa unicamente por um corte de cabelo esquisito e declarações sobre pronomes persista quando tais marcadores se tornarem ultrapassados. Os amigos que, com tanta virtude, validaram aquela identidade crescerão e encontrarão coisa melhor para fazer. Mas algumas terão sido submetidas a mudanças físicas que, apesar de agora indesejadas, não podem ser desfeitas.” Essas cicatrizes são para sempre (e grupos da comunidade trans tratam os que optam pela “destransição” como apóstatas).
Como chegamos aqui? Freud (que hoje ninguém leva a sério cientificamente) tem culpa no cartório. Nos “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, propôs uma taxonomia do desenvolvimento humano que se concentra na natureza do desejo sexual da infância à idade adulta – e que a libido está no cerne da cultura. E entronizou a noção de que a essência humana é a sexualidade – a nossa alma, quase em âmbar, são as quecas (não o amor, embora, depois de dormir com a cunhada, Freud se abstivesse definitivamente de sexo a partir dos 39 anos – a maior sublimação de sempre!). Com a pílula e o aborto institucional, o erotismo recreativo assumiu-se como a apoteose da individualidade, e os atos mais privados e íntimos se transfiguraram nas questões públicas mais ubíquas e ensurdecedoras. Nunca politizou-se e tagarelou-se tanto sobre sexo ( já pôr realmente a mão na massa é outra história, como indica o colapso da natalidade – que ainda implica o antiquado método binário. No UK, a natalidade já está 30% abaixo da taxa de reposição).
Resultado? Chafurdamos na “era terapêutica”, como mostram o clássico “The Triumph of the Therapeutic”, de Philip Rieff, e o novíssimo “Therapy Nation”, de Jonathan Alpert. O ethos clínico transbordou do divã psicanalítico e assolou o mundo, intimando as pessoas a monitorarem suas emoções com um sismógrafo, a exumar explicações no seu passado e a questionar se cada ínfima interação está atender aos seus anseios emocionais. Discordância é agressão, e conviver com interlocutores torna-se impossível. Não encolhemos os ombros para mais nada, pois dissabores não são contingências – são hecatombes. Os gestos mais singelos imbuem-se de subtextos lancinantes, e a mera displicência degenera em atrocidade, e choramos baba e ranho 24hs por dia, 7 dias por semana, a esfregar sal em feridas imaginárias.
Numa crónica hipersensibilidade, cambaleamos vida fora a catalogar ofensas e ultrajes, e a exigir justificações, contrições e retratações de joelhos daqueles que ignoraram a nossa persona. Relacionamentos pessoais e profissionais perfeitamente razoáveis sucumbem a paranóia obsessiva de dissecar tudo e mais alguma coisa: parceiros, pais, vizinhos e colegas metamorfoseiam-se em vampiros. Não há relação que aguente.
Pela primeira vez na história, a maioria dos americanos – 67%! – diz ter consultado um terapeuta, um aumento substancial sobre os 43% em 2023. Mais: 1/4 dos 270 milhões de americanos maiores de 18 anos “receberam tratamento de saúde mental” a cada ano entre 2022 e 2025. Entre os millennials (30 a 45 anos), esses números saltam para estratosféricos 72%! Nos EUA um número significativamente maior de brancos que de negros consulta terapeutas, e um número expressivamente maior de mulheres que de homens. Já há mais de 20 mil “apps bem-estar” de diversos tipos. Bem, não é preciso ser um Einstein para concluirmos que a cultura terapêutica não é… um remédio santo.
Por estranho que pareça, se sempre existiram crianças, nem sempre existiu a “infância”. Isto é, uma faixa etária especial (digamos, entre 4 e 11 anos), com um determinado nível de desenvolvimento intelectual, lógico e afetivo, aquisição de linguagem, conhecimento conceitual e moral, e vulnerabilidades específicas. E que por isso os miúdos não devem trabalhar mas brincar, e precisam de ser protegidos da violência física, emocional e sexual.
Em etapas da Antiguidade e da Idade Média uma criança não era senão uma espécie de miniatura do adulto, um anão provisório. Pais e mães “normais” falavam e faziam tudo à frente dos pimpolhos – incluindo sexo e truculência. O costume de comemorar o aniversário de um petiz não existia até quase o fim do século XVIII (o do Iluminismo) – a indicação exata da idade de um miúdo é um hábito cultural recente, com menos de 200 anos (até porque era ampla a mortalidade infantil).
Agora a infância está a desaparecer prego ao fundo. Peter e lona Opie, historiadores ingleses dos brinquedos, identificaram centenas de jogos tradicionais em extinção. Como a apanhada, às escondidas (praticado na Atenas de Péricles), a macaca, etc. Foram todos ceifados pelas consolas e smartphones. Mesmo o visual de maiorcas e minorcas torna-se indistinguível. Hoje, homens vestem-se quase com as mesmas roupas dos 8 ou aos 80 anos. Praticamente só restam as duas extremidades do espectro: bebés e anciãos – a adolescência agora vai até aos 50 anos (no mínimo). A infância é erotizada (para Freud, a miudagem é tarada sexual, “polimorficamente pervertida”), ao passo que zoomers resmungam imenso sobre sexo (impropérios ao sexo oposto), mas fazer só se for virtual. Afinal, muitos já cresceram sem pais, e foram ensinados desde a infância que a sua masculinidade é um problema e que as mulheres não precisam dos homens nem vice-versa, pois eles e elas são intercambiáveis.
No século XX, terapeutas (Anna Freud, Jean Piaget, Melanie Klein, Bruno Bettelheim, etc) pegaram as crianças ao colo. Embora a infância esteja a associada a uma fase de felicidade absoluta, as crianças têm suas próprias angústias. Mais: de certa forma nunca deixamos ser criancinhas (sobretudo os varões, como as mulheres estão cansadas de saber). Há a frase que Freud roubou a Wordsworth: “A criança é o pai do homem”. E acrescentou Julien Green: “A criança dita, o adulto escreve”. Por fim, um dos meus versos prediletos da poesia brasuca, que abrange humanos do 0 aos 1000 anos: “A minha pátria é a infância/Por isso vivo no exílio”.
Um dos méritos da obra infantil de JK Rowling (que escreve ótimos policiais sob o pen name de Robert Galbraith) é que não enclausurou-se num nicho: a série Potter é quase tanto sobre Harry como sobre Hermione. E, astuciosamente, JK esquivou-se à cilada da “faixa etária”. No primeiro volume, o herói tem 11 anos – no sétimo e último, ele e amigos estão com quase 17 (Harry recebe um “barbeador encantado”).
As Wachowski acusaram JK de nazi, mas, como Goebbels, querem queimar senão os autores (não se pode ter tudo), ao menos os livros. Roald Dahl morreu em 1990 e suas histórias (clássicos contemporâneos como “Matilda” e “Charlie e a Fábrica de Chocolate”) venderam 300 milhões de exemplares. Nas novas versões (póstumas, no melhor estilo profanadores de túmulo), palavras como «gordo» e «feio» foram expurgadas, porque há pessoas assim, e podem sofrer algum tipo de trauma. As obras de Dahl agora trazem centenas de emendas. Termos como «pai» e «mãe» tornaram-se “problemáticos”, não só porque há órfãos, mas porque algumas crianças têm dois pais ou duas mães. «O toucador da mamã» é apenas «o toucador» e «o balcão de ferramentas do papá» é só «o armazém de ferramentas», para evitar sugestões – credo! – de que mamãs e papás possam ter gostos ou prioridades diferentes.
A vandalização da obra de Dahl foi realizada pela Inclusive Minds, um «coletivo» de leitores sensíveis que são «apaixonados por inclusão e acessibilidade na literatura infantil». Nos clássicos do cinema, o desenho animado “Peter Pan” adverte hoje para a visão estereotipada dos nativos americanos. E as canções de “A Pequena Sereia” foram reescritas, para que não passe pela cabeça de ninguém que o príncipe Eric está a assediar a anfíbia Ariel. O mal será erradicado da literatura infantil – adeus ogres, bruxas com verrugas no nariz, madrastas, gnomos, feiticeiros ou simplesmente crianças travessas. Olá, tédio infinito.
Em contrapartida, “Homebody”, de Theo Parish, traz garbosas imagens de miúdas a exibir suas cicatrizes de mastectomia como um gesto de empoderamento – e conquistou a medalha Carnegie, prémio estabelecido em 1936 para o livro infantil do ano em língua inglesa. “Grandad’s Pride”, de Harry Woodgate, para crianças a partir dos 3 anos, inclui desenhos de um avozinho queer a pavonear-se para o neto com roupas fetichistas de couro.
Por 300 anos, o romance foi (na minha opinião suspeitíssima) a suprema arte do mundo moderno: o recurso pelo qual tentávamos explicar-nos a nós próprios, através de personagens poliédricas: 1) O Herói, que faz a coisa certa pelos motivos certos. 2) O Anti-herói, que faz a coisa certa pelos motivos errados. 3) O Herói Trágico, que faz a coisa errada pelos motivos certos. 4) O Vilão, que faz a coisa errada pelos motivos errados. As possibilidades narrativas eram infinitamente matizadas.
Hoje, com propaganda e dogmas formulaicos, a espontaneidade criativa da ficção foi quase inviabilizada, destronada por panfletos esquemáticos e previsíveis. Não admira que os obscurantistas decretem uma caça à bruxa (mãe do bruxinho Harry) JK, quer pela sua ficção, quer por ser mulher. A literatura infantil era o último baluarte da prosa ficcional, preservando a hipótese de uma clareza metafísica sobre o bem e o mal, o certo e o errado – que o romance adulto tornou-se demasiado tíbio para encarar, preferindo slogans rasos e unidimensionais.
Em 1816, uma adolescente londrina de 18 anos escreveu a saga icônica de um cientista maluco que, com uma miscelânia de corpos, gera uma criatura no laboratório, sem qualquer participação de mulher. Como se sabe, o resultado não foi famoso. Hoje, se não se pusesse a pau, talvez a própria teenager Mary Shelley fosse o pobre Frankenstein que ela inventou.



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