Michel de Montaigne - Da Tristeza

 




CAPÍTULO II
Da Tristeza

Sou dos que menos sentem essa disposição de espírito[1]; não a aprecio nem a valorizo, embora de um modo geral, e preconceituosamente, os homens a respeitem e estimem. Com ela enfeitam a sabedoria, a virtude, a consciência, mas o adorno é pobre e feio. Os italianos com muito mais razão deram seu nome à maldade[2], pois ela é sempre nociva, sempre insensata, e também covarde e desprezível: os estoicos a proíbem aos sábios.

Diz-nos a história[3] que Psamético, rei do Egito vencido por Cambises, rei da Pérsia, vendo passar a filha, como ele próprio cativa, e que ia buscar água vestida de serva, permaneceu mudo, olhos voltados para o chão, enquanto choravam todos os seus amigos. Vendo logo depois o filho, que conduziam entanto, diante de um criado que levavam à tortura, juntamente com outros prisioneiros, pôs-se a golpear a cabeça demonstrando extrema aflição.

Pode-se comparar esse fato ao que ocorreu recentemente com um de nossos príncipes, o qual recebeu em Trento a notícia da morte do irmão mais velho, sustentáculo da honra e da manutenção da família. Logo depois sabia do falecimento do segundo irmão para o qual, desaparecido o primeiro, voltavam todas as esperanças. Ambas as desgraças ele as suportou com coragem exemplar. Eis que dias mais tarde vem a morrer um dos seus amigos[4], ao que não pôde resistir. Sua resolução o abandona e ele se desfaz em lágrimas e lamentações, a ponto de observarem que somente ao último acontecimento se mostrava realmente sensível. Na verdade a medida estava cheia e uma coisa de nonada bastara para abater-lhe a energia e provocar um transbordamento de tristeza. Poder-se-ia, creio, assim explicar igualmente a atitude de Psamético, se não acrescentasse a história que Cambises, tendo-lhe perguntado por que motivo ele, que tão pouco se mostrara perturbado com a infelicidade da filha e do filho, tanto se afetara ante a de um amigo, recebeu esta resposta: “É que só esta última tristeza é suscetível de se exprimir por lágrimas; a dor sofrida nos dois primeiros casos está além de qualquer expressão.”

A propósito, vem-me à memória o caso daquele pintor antigo[5] que, no sacrifício de Ifigênia, teve de representar o sofrimento dos diversos personagens segundo o grau de interesse que cada um votava à bela e inocente jovem, e que ao chegar ao pai da virgem já havia esgotado todos os recursos de sua arte. Diante da impossibilidade de dar-lhe uma atitude em relação com a intensidade da dor, pintou-o de rosto coberto, como se nenhuma expressão pudesse ilustrar semelhante desespero. Eis por que os poetas imaginam a miserável Niobé, que depois de perder seus sete filhos viu morrerem as sete filhas, transmudada em rochedo pela sobrecarga de desventura: “petrificada pela dor”[6], a fim de exprimir essa espécie de embrutecimento sombrio, surdo e mudo que se apodera de nós quando as ocorrências nos esmagam ultrapassando o que nos é dado suportar. E, efetivamente, uma dor excessiva, exatamente porque excessiva, deve estupidificar a alma a ponto de paralisar qualquer gesto, como acontece quando recebemos inesperadamente uma péssima notícia. Somos tomados de espanto, penetrados de pavor ou de aflição e como tolhidos em nossos movimentos até que à prostração suceda o relaxamento. Surdem então as lágrimas e os lamentos que aliviam a alma e como que lhe permitem mover-se mais à vontade: “é com dificuldade que afinal recupera a voz e pode exprimir sua dor”[7].

Durante a guerra do Rei Fernando contra o rei da Hungria perto de Buda[8] um dos guerreiros mostrou-se particularmente valente nos combates que se verificaram. Ninguém o reconhecera e todos o elogiavam e lhe lamentavam a sorte porquanto sucumbira na refrega. E ninguém mais do que um Senhor de Raisciac, fidalgo alemão, o engrandecia, entusiasmado com tão rara coragem. Recolhido o corpo, Raisciac aproximou-se como os demais para ver quem era, e ao lhe tirarem a armadura reconheceu o filho. A emoção dos presentes aumentou mais ainda; só ele permaneceu impassível, sem dizer palavra, sem pestanejar, de pé, contemplando fixamente o corpo até que a violência da dor tendo atingido o próprio princípio da vida o derrubasse para sempre. “Quem pode dizer a que ponto arde, arde bem pouco”[9]dizem os amantes que querem exprimir insuportável paixão ou: “Quão miserável sou! O amor perturba-me os sentidos. À tua vista, ó Lésbia, perco a razão. Falar está acima de minhas forças, minha língua engrola, uma chama sutil percorre-me as veias, mil ruídos confusos soam-me aos ouvidos e o véu da noite estende-se sobre os meus olhos.”  [10]

         Não é no auge de nossos transportes quando nos ferve o sangue nas veias que somos mais capazes de encontrar o tom que comove e persuade. Nesses momentos a alma está por demais absorvida em seus pensamentos, o corpo demasiado abatido e lânguido de amor; daí, por vezes, a inesperada e fortuita impotência que surpreende o amante tão fora de propósito; daí esse gelo que o envolve, em virtude do extremo ardor, na própria fonte de seu gozo. A paixão que se deixa saborear e digerir mal merece ser assim nomeada. “Os prazeres leves são loquazes, as grandes paixões silenciosas [11].”

Da mesma forma nos comove a surpresa de um prazer inesperado: “Logo ao ver-me, ao perceber de todos os lados as armas de Troia, fora de si, como golpeada por pavorosa visão, se imobiliza. Seu sangue gela, desmaia e só muito tempo depois pode enfim falar [12].”

Além daquela romana que morreu de alegria ao ver o filho escapar da derrota de Canes; além de Sófocles e Dionísio, o tirano, que também morreram de alegria ao receberem uma boa notícia; e Talma que faleceu na Córsega ao saber das honras que o Senado de Roma lhe conferira; vimos neste século o Papa Leão X que, ao ter notícia da tomada de Milão, tão ardentemente desejada, experimentou tal carga de alegria que a febre o assaltou, levando-o à morte. E mais um testemunho comprovador da fraqueza humana tirado dos antigos: Deodoro, o dialético, vendo-se em suas aulas públicas incapaz, de repente, de responder às objeções que lhe faziam, sentiu tamanha vergonha que morreu na hora. Quanto a mim, sou pouco predisposto a essas paixões violentas; tenho uma sensibilidade[13] naturalmente grosseira e a torno mais espessa ainda e empedernida mediante raciocínios diários.



FONTES: 

1. Coleção Os Pensadores: Montaigne, São Paulo: Abril Cultura, 1980, págs. 11 e 12.





NOTAS

[1] No texto “paixão”. O dicionário de Hatzfeld e Darmesteter assinala entretanto o sentido do “sofrimento”, tirando o exemplo do próprio Montaigne. Pareceu-nos melhor tradução “disposição de espírito”, adotada por Michaut. (Nota do tradutor Sérgio Milliet).

[2] Malignité – no original, o que significa na linguagem arcaica – disposição para fazer o mal. Quanto à palavra italiana a que alude Montaigne, há confusão. Trata-se não de “tristezza” mas de “tristizia” para a qual o dicionário de Petrocchi consigna o sentido de “ignomínia”. (N. do T.)

[3] Heródoto.

[4] No texto “domestiques”, palavra que tinha então o sentido de amigo da casa. (N. do T.)

[5] Cícero. De Orator., c. 22; Pliny, xxxv. 10.

[6] Ovídio. “Diriguisse malis,”
 “Petrificada pela dor.” [Ovídio, Met., vi. 304]

[7] Virgílio. “Et via vix tandem voci laxata dolore est.” (Eneida, XI, 151)


[9] Petrarca. “Chi puo dir com’ egli arde, a in picciol fuoco.” (Soneto 137)

[10] Catulo. “Misero quod omneis
Eripit sensus mihi: nam simul te,
Lesbia, aspexi, nihil est super mi,
Quod loquar amens.
Lingua sed torpet: tenuis sub artus
Flamma dimanat; sonitu suopte
Tintinant aures; gemina teguntur
Lumina nocte.” (Catulo, Epig. LI. ad Lesbiam)

[11] Sêneca. “Curae leves loquuntur, ingentes stupent.” (Seneca, Fedra, 607)

[12] Virgílio. “Ut me conspexit venientem, et Troja circum
Arma amens vidit, magnis exterrita monstris,
Diriguit visu in medio, calor ossa reliquit,
Labitur, et longo vix tandem tempore fatur.” (Eneida III, 306)

[13] “Apprehension” tanto pode ser compreensão (faculdade de entender), como sensibilidade (faculdade de sentir). (N. do T.)


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